Vai de retro Covid-19!

16 de dezembro de 2020

Mau tempo lá fora. Decido ficar a descansar um pouco mais. O telefone toca. Do outro lado a minha mãe. Chorosa e desesperada. De voz trémula diz-me com dificuldade “Oh Cátia, deu positivo! Deu positivo!” e desata num pranto.

O coração dispara mas na minha voz permanece a calma. Transmito a calma e a segurança que a minha mãe precisa naquele momento. Peço-lhe que não chore. Digo-lhe que apenas tinha chegado a nossa vez (como acredito que vá, infelizmente, chegar a quase todas as famílias).

Sente-se culpada sem culpa. Estou grávida e a preocupação dela comigo dobra… Entre lágrimas e desespero só consegue dizer: “e a Julieta? E a Julieta?”. Chora sem parar.

Ponho o sangue no frigorífico, tento acalmá-la e ser racional.

Aviso o meu pai. Ligo para o meu marido. Aviso os meus avós que vivem por baixo.

Fecho os meus pais, um em cada quarto. A minha mãe trabalha num lar, o meu pai num hospital. Não sei a origem do vírus e decido que poderá ser mais seguro assim. Ligo Saúde 24.

Do outro lado da linha uma voz doce diz-me como devo proceder. Confirma-me que o Tiago tem que voltar para casa do trabalho e isolar-se também.

Estamos todos em casa (exceto a minha irmã que felizmente está fora). Passo o dia ao telefone a tratar de todos os processos cá de casa. Sou sempre atendida por pessoas incríveis que se preocupam verdadeiramente com o meu estado de graça, me orientam e me dão os conselhos que preciso para “orientar as tropas”. Senti que todas as críticas que alguma fiz ao Sistema Nacional de Saúde foram injustas e infundadas.

Já com a ajuda do meu marido (que nunca me falha nestas coisas) marcamos testes para todos na manhã seguinte.

17 de dezembro de 2020

Noite em claro. Preocupação no auge. Se até agora só tive tempo para pensar nos outros, começo a preocupar-me com a minha barriguinha e a preparar-me para todos os cenários. Peço à Julieta que se aguente e que seja forte se o panorama piorar.

Sinto o Tiago nervoso. O coração de pai começa a acelerar e tenta proteger-nos o melhor que consegue. Desinfeta tudo o que pode e ajuda-me em todos os procedimentos. O medo apodera-se dele e teme por nós. Apesar de ser asmático nunca pensou nele. O foco sempre fui eu e a Julieta.

É de manhã e seguimos até Famalicão, dividimo-nos entre os carros disponíveis cá em casa. O objetivo é proteger as pessoas mais frágeis. Eu, por estar grávida, e os meus avós, por serem idosos.

Vamos até ao laboratório, fazemos o teste e o resultado chega-nos, por e-mail, por volta das quatro da tarde. Respiramos de alívio, estamos todos negativos.

As autoridades pedem-nos que os cuidados continuem porque temem que o bicharoco esteja em incubação em alguns de nós.

Durmo separada do meu marido. Usamos máscara dentro de casa. Não fazemos refeições juntos. Desinfetamos o que conseguimos cá em casa. Medimos a temperatura a todos com regularidade. Tentamos cumprir aquilo que podemos.

Com o teste negativo, o meu pai pode circular pela casa mais à vontade mas a minha mãe tem que continuar trancada no quarto. Tento que seja uma experiência menos dura.

Entrego a comida à porta e para aligeirar o clima tenso, grito : “Serviço de quaaaaarrrrtoooos!!” como se de um hotel se tratasse.

Com o passar dos dias chegam – ao muro de nossa casa – miminhos de muita gente que gosta de nós. A família e os amigos nunca nos deixam mal.

As meias quentinhas para os pés da minha mãe, os presentinhos para aquecer o coração da mãe e da Julieta, os docinhos para consolar o corpo e a alma dos isolados, uma palavra que, mesmo de longe e por detrás de uma máscara, nos aqueceu o coração. Um sem fim de coisas.

Que a minha família é uma fábrica de gente boa, eu já sabia…esta situação só veio confirmar.

Chegam mensagens e chamadas de toda a parte. Todos eles perguntam pelo nosso estado de saúde e se precisamos que nos entreguem cá em casa alguma coisa. Prontificam-se a ajudar como podem.

Felizmente não precisamos de nada. Somos vizinhos da super-heroína Maria Luísa que nos tem satisfeito todas as necessidades. Vai-nos ao supermercado, à farmácia, ao pão fresquinho sempre com uma disponibilidade incrível e ainda chega sempre com uma palavra de esperança.

24 e 25 de dezembro de 2020

9/10 dias fechados em casa. A minha mãe continua no quarto. Os sintomas não têm sido graves mas alguns deles são bem chatinhos. Tentamos combatê-los com e como conseguimos.

A frase que mais oiço é: “A minha cabeça vai rebentar. A minha cabeça vai rebentar.” Não posso fazer nada e sinto-me impotente, mando-lhe mais umas cartelas de paracetamol para aliviar a coisa.

Tem tido um poder de encaixe incrível. A mulher que não conseguia parar…parou! O vírus manda mais do que todos. As mil e uma coisas que tinha planeado fazer…tiveram que ser adiadas. A pressa em que vivia acabou.

É dia de Natal e… a minha mãe não pode sair dali. A nossa nini vai ficar em Coimbra (onde estuda), a conselho da Saúde 24. No meio do caos e da tristeza de não estarmos com ela numa quadra destas, surgem duas almas caridosas que se disponibilizam – com a maior das sensibilidades – a entregar-lhe – de surpresa – um brunch caseiro de luxo, a ceia de natal e um presente para abrir à meia-noite. Coisas destas se não esquecem. A Andreia e o Ricardo são amigos de longa data, vivem em Coimbra e fizeram o nosso Natal. Ainda há esperança na humanidade, acreditem em mim!

A par disso, teve uma visita dos tios e primos que passaram por Coimbra e não se esqueceram dela. Levaram-lhe mais miminhos. Impagável!

Com o coração mais em paz por saber que a minha irmã iria ter um miminho de Natal – preparado com o maior do cuidado – fui para a cozinha fazer alguma doçaria para mimar o pessoal de cá de casa também. Não me pareceu Natal… mas não quis que a data passasse em branco. Preparei algumas coisas, improvisei uma mesa de Natal e lá fui eu fazer o “serviço de quaaaaaartoooos”.

Saio das imediações da porta do quarto da minha mãe e ela recolhe a mesa. Liga-me e gaba os meus dotes culinários. (Inédito! O que o vírus faz às pessoas!)

À noite, à mesa, só está o meu marido e a uma distância anormal. Custa mas este ano tem que ser assim.

Os meus avós jantaram sozinhos pela primeira vez, o meu pai janta com o “fofinho” e o “remelado”. (Os felinos mais companheiros e mais bem nutridos aqui da zona).

Não sinto que tenha sido um Natal triste porque apesar de tudo estávamos bem de saúde e mais nada importava naquele momento.

Seguiram-se dias um nadinha difíceis para todos. Sobretudo para a minha mãe. Nunca perdeu o cheiro nem o paladar mas queixava-se de dores de cabeça fortes (como não tem memória), sensação de boca queimada, dores no corpo, dores de garganta.

28 de dezembro

Repetimos o teste no mesmo laboratório. O resultado chegou ao final da tarde. Tudo negativo, inclusive a minha mãe. Vimos, confirmamos e reconfirmamos. Damos ordem de soltura à Maria de Fátima. Parecia-lhe mentira. Agradeci a Deus a bênção!

31 de dezembro

Ordem de soltura para os restantes residentes. Mais uma batalha “vencida”! Mas… O bicharoco continua por aí, em qualquer esquina… por isso os cuidados são para manter até que o pesadelo acabe. “Gato escaldado, de água fria tem medo!”

Protejam-se o mais que puderem. A qualquer momento este drama entra pela vossa/nossa porta. Por aqui correu bem…mas corre mal a tanta gente! Os números de doentes internados e de mortos são só assustadores.

E é caso para dizer… Vai de retro (Satanás) que é como quem diz “Vai de retro Covid-19”!!

IRRA!

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