Os 92 do patriarca

 

avô Eduardo

 

 

 

Hoje o patriarca da família faz anos. 92! Há mais de 20 que diz que não chega à Páscoa.

Criou dez filhos, todos eles com problemas (no botão do volume). O avô “ganchinho” nunca os conseguiu consertar mas em momento algum os deixou mal quando a avaria era na bicicleta ou na motorizada.

O avô Eduardo foi só o maior e o mais competente “garagista” de bicicletas das redondezas. Quem nunca pegou na “ginga” e foi à Aldeia Nova pôr óleo na corrente ou consertar um furo no pneu?

[Confesso que eu fui poucas… porque primeiro era uma cliente VIP e depois sempre que a “bicla” dava sinais de “desgaste” o avô, numa das muitas idas a Famalicão para ir buscar peças, passava por cá e arranjava-a a custo zero. Quem quer bons avôs, ARRANJA-OS!]

A minha Shimano estava sempre com os pneus em baixo e o meu avô lá remendava, remendava, remendava. Quando não dava mais… Lá vinha ele, na sua motorizada, com uma “câmara de ar” novinha pendurada. No espaço de nada estava tudo consertado e eu em cima da bicicleta outra vez. Ele mandava-me dar “uma voltinha”, certificava-se que estava tudo bem e arrancava rumo à tasquinha do Leal. Depois lá ia para casa trabalhar mais um bocadinho.

Foi assim que ganhou dinheiro boa parte da sua vida para que não faltasse o essencial. Chegaram a ser 14 pessoas à mesa. Ele, a avó, dez filhos e os bisavós.

A avó Deolinda partiu cedo demais. Aos 63. Ela cuidava da casa e dedicava-se a tratar do rancho de filhos.  A nossa Deolinda pôs ao mundo o tio Eduardo, o tio Arnaldo, a tia Fátima, o tio Quim, a tia Olívia, o pai Serafim, o tio António, a tia Margarida, a tia São, o tio Abílio e a tia Laurinda. [Diz o meu avô que “na altura não havia televisão” e que tinham que arranjar ocupação].

Já o avô vivia entre motas e bicicletas.  [Nos tempos livres dedicava-se a fazer boa cerveja, conta o pai Serafim! Passou ao lado de uma grande carreira na Super Bock]. Pouco tempo sobrava para os filhos.

Há uns tempos, com o bisneto Rodrigo ao colo e a lágrima no canto do olho, confidenciou-nos que nunca tinha pegado num bebé tão pequenino. Nunca deu colo aos filhos, segundo ele “antigamente isso ficava a cargo das mães”. “Era a Deolinda que tratava deles todos”. Os pais só tinham que trabalhar para garantir “comidinha na mesa”.

Para que nada faltasse à mesa, um dia o tio António (mais conhecido por tio sexy – leia-se “séééquesi”) resolveu “dar uma mãozinha” ao meu avô na garagem. Em “três tempos” personalizou um assento de uma mota com o bico da foucinha. O avô não achou grande piada, ralhou-lhe e perdeu-se um artista! [Parece que estou a ver… Um assento de mota cheio de buraquinhos, super na moda…não sei qual era o problema. Este meu avô nunca teve um feitio fácil nem sensibilidade para apreciar obras de arte].

Depois dos filhos, ajudou a criar alguns dos netos. Hoje já deve ter perdido a conta aos netos.. e aos bisnetos!  [Eu ajudo! São 18 netos e 16 bisnetos (serão 18 bisnetos em breve. A Anita e a Inês ainda estão no forno)].

Aos 92 já casou boa parte dos netos. Não conseguiu casar dois filhos. Mas isso é outra conversa! [risos]

Ultimamente quando recebe um convite de casamento diz logo que não vai.  Diz que não consegue andar e que já não tem força nas pernas… e de quem é a culpa? É DA MÉDICA DE FAMÍLIA, claramente! A tipa insiste em não lhe dar medicamentos para as pernas “funcionarem”. Acham que se admite?  [Acaba por ir a todos e adora ver a família junta].

Como a idade ” já não perdoa” não sai muito… mas do alto dos seus 92 anos ainda põe a perna em cima de um banco para se calçar e ir lanchar ao café! Fora isso… não sai nem deixa sair! É um mimalho e quer sempre o tio Abílio por perto! O desgraçado se vai ver o jogo de futebol do Gondifelos a 1km de casa há logo birrinha. Valha-nos a paciência do tio Abílio.

O programa diário há muito que é monótono. Cada vez mais. A maior parte do tempo é passado no quarto a ver televisão na companhia dos seus gatinhos.  Naquela casa todos os gatos se chamam “tchinhos” e não se queixam! Podiam ficar revoltados com o nome  (quem não ficaria?) e nunca mais aparecer lá… mas não! Continuam a fazer-lhe companhia e a enrolar-se nas mantas com ele.

Cá fora tem sempre, desde que me lembro, um cão. Se morre um, é sempre substituído por outro… Seja qual for o cão… chama-se sempre “bolinhas”. [Houve por lá um cão muito famoso (entre os meus tios) que se chamava “fadista”… segundo se consta nunca cantou nada e livrou-se do nome “bolinhas”… deve ter ido enganado!]

Em cenário de pandemia está “preso” mas em casa como ele insiste em dizer. Não tem ido ao café. Vê a família pela janela do quarto.

Hoje o tio Abílio que apesar de, segundo o meu avô, ter uma carrada de defeitos e nem o quintal saber cultivar… vai ser, como sempre, o cuidador mais paciente do mundo e vai mimar o avô com o seu almoço preferido. Já me disse que hoje não vai aceitar os habituais serviços de takeaway da família porque quer vestir o avental e fazer “as batatas com bacalhau” como o avô gosta.

Este ano não há festa. O Nuno não vai poder comprar os foguetes. Não haverá o habitual barulho infernal  (típico dos nossos ajuntamentos). Não vai haver comes e bebes. Ninguém vai jogar à malha. Não vão haver beijinhos, nem abraços nem as habituais gargalhadas.  Mas estamos todos, cada um em sua casa, a brindar os 92 do avô!

Parabéns avô ganchinho!

Esta pandemia tirou-me o trabalho, o sossego e fez-me adiar uma série de sonhos.

Fui desafiada pela minha querida Sandra Varandas (coordenadora do site da SIC Notícias) a escrever sobre como estou a viver esta pandemia.

 

Aqui partilho com vocês o que escrevi para o meu site do coração! ❤ Foi um orgulho fazer parte dele!

 

https://sicnoticias.pt/especiais/o-meu-testemunho/2020-04-27-Esta-pandemia-tirou-me-o-trabalho-o-sossego-e-fez-me-adiar-uma-serie-de-sonhos

 

O testemunho de Marina Azevedo, 30 anos.

Vivo em Vila Nova de Famalicão onde já há 313 pessoas infetadas pela covid-19, algumas delas vivem na minha freguesia – Gondifelos.

Esta pandemia tirou-me o trabalho, o sossego e fez-me adiar uma série de sonhos. Não deixou cumprir a tradição de Páscoa da minha família. Não permitiu sequer que festejasse dignamente a minha entrada nos -intas.

A minha casa é dividida em três. Num dos lados vivem os meus pais com a minha irmã, noutro a minha avó e o meu avô, noutro vivo eu e o meu marido.

O restaurante onde trabalhava a minha mãe fechou. Tem passado os dias no quintal e a tratar das galinhas e dos patos. Já plantou favas, cebolas, alfaces, ervilhas, feijões, batatas, nabiças, couves, pepinos e pimentos. Por aqui, pelo menos, sopa não vai faltar.

A minha irmã, que estuda na Universidade de Coimbra, está em casa a ter aulas online. Se em tempos sonhou ter aulas à distância de um clique, hoje sonha com o dia que se sentará novamente nos bancos da universidade.

O meu pai é um dos que está “na linha da frente” (como as pessoas gostam de dizer) e tem sido um dos nossos heróis.

O meu pai é auxiliar de saúde no hospital da nossa zona e todos os dias sai de casa para ajudar a combater este maldito vírus que fez parar o mundo. A fé e o amor pela profissão dão-lhe fôlego. Apesar de todos os problemas de saúde e da falta de condições de trabalho continua a ir e a lutar, juntamente com os colegas, para que este pesadelo acabe.

No trabalho tem cuidados, chega a casa cuidados tem. Não pode ser de outra maneira. Ainda vem a descer a rua, a minha mãe (preocupada) já lhe está a falar de longe e a lembrar-lhe que a roupa fica na entrada e que vai direto para o banho. Ele sabe. É todos os dias assim. Será assim nos próximos meses.

Cá em casa a grande preocupação são os meus avós. Ambos a chegar à casa dos 80 são, em princípio, os mais vulneráveis. Não saem para nada. O avô Jorge é doente psiquiátrico e os últimos dias têm sido mais difíceis. Nós, família, tentamos dar o apoio que precisam, asseguramos as compras de supermercado, as idas à farmácia e tudo o que vão precisando. A idas aos hipermercados são agora raras, temos tentado remediar com a mercearia do senhor Joaquim e da dona Fátima aqui ao pé de casa.

Eu como fiquei desempregada fico em casa o dia todo. O meu marido continua a trabalhar para que não falte queijo nas prateleiras dos nossos supermercados. Felizmente trabalha numa empresa que desde cedo tem um plano de contingência que é, a meu ver, exemplar.

Os meus dias têm sido ocupados a fazer as lides domésticas, a fazer algum exercício físico, a ler, a escrever, a ver televisão e a falar via videochamada com a minha família paterna (conhecidos pela alcunha de “ganchinhos”).

Os dias tornam-se menos difíceis quando temos, à distância de uma videochamada, os nossos ente-queridos. Dão-nos força e alento quando o desespero bate à porta. Partilhamos os nossos medos, as nossas angústias e umas tantas parvoíces. Recordamos os nossos convívios, sonhamos com os próximos… quando serão? Somos sempre mais de 50 e os ajuntamentos não serão permitidos tão cedo. Enquanto isso, juntamo-nos no Messenger todos os dias, rimos às gargalhadas com os filtros cómicos que usa a tia Laurinda e quase ficamos moucos com a voz estridente da tia São.

Já comemoramos pelo menos oito aniversários via web. Não há bolo para todos. A diabetes, que teima em assombrar boa parte da família, anda controladinha. [A parte da diabetes controlada é mentira. Todos os dias chegam ao grupo de Facebook fotos de bolos e doçaria variada] .

A especialidade da prima Daniela é o bolo de iogurte e um semifrio de bolacha delicioso. A prima Cláudia faz uma mousse de Oreo com um aspeto divinal (mas a Lara também não fica atrás). A prima Sílvia é uma expert em bolo de cacau. A prima Carla faz um bolo de cenoura espetacular! A tia Fátima ainda não mandou fotografia, mas aposto que tem enchido o tio Firmino de queijadinhas. A coitada ainda não teve tempo de tirar fotos da sua especialidade porque os seus dias não têm sido fáceis. Tem estado a cuidar da Adriana e do Francisco (ambos no 1.º ciclo) que teimam em pôr a cabeça da avó em água.

O casamento da nossa “Catarina” foi adiado. Nós estamos tristes. Ela ainda mais. Mas havemos de festejar a união dela com o Xavier ainda com mais vontade e com mais alegria. Esta pandemia fez-nos crescer e aprender a dar ainda mais valor às nossas confraternizações, às gargalhadas juntos, aos abraços apertados. O enlace, que será em 2021, promete!

A par disto, nascerão mais duas “ganchinhas” durante o cenário de guerra. Não as vamos poder visitar, não as vamos pegar no colo tão cedo, mas estamos todos a fazer figas para que nasçam cheias de saúde e de garra.

Tenho saudades. Muitas saudades. Tenho saudades de uma série de gente… mas e do avô Eduardo? Só de pensar o coração já aperta. Faz 92 anos a 12 de maio e não vão haver os festejos habituais ao patriarca da família. Estou inconsolável com a ideia, mas não há outra opção. O que me descansa é que o tio Abílio, sempre muito paciente, tratará muito bem o meu avô – como sempre. A distância é, por estes dias, o maior ato de amor.

Ah, e por falar em amor! Sabem que anda por aí um ganchinho a espalhar amor e dedicação ao próximo? É o nosso Eduardo Filipe. Não é que ele foi um dos bombeiros que entrou no lar de Cavalões e ajudou a transportar os idosos para o Hospital militar no Porto? Que orgulho!

O futuro que se avizinha não será tão colorido quanto imaginei. Tão cedo o medo não vai sair do peito. A crise económica mundial vai afetar-nos a todos um bocadinho. Mas se, depois desta guerra, não perder nenhum dos meus soldados sou a pessoa mais feliz e mais grata deste mundo.

Fiquem em casa e protejam-se!