A Páscoa no avô Eduardo

A casa do avô Eduardo é pequenina. É térrea, branca, com janelas e portas azuis. Nota-se muito que o patriarca é portista? [Há lá defeito pior?]

Naquela casa minúscula já viveram 14 pessoas. [A maior parte delas benfiquistas, felizmente!] Dez tios, o meu avô e a minha avó, o meu bisavô e a minha bisavó. Sentavam-se todos à mesa no tempo em que  “uma sardinha dava para dois”. O meu pai diz que nunca passou fome mas a “fartura não era nenhuma”.

Naquela casa havia um quarto para as raparigas e outro quarto para os rapazes. “Dormiam uns para os pés, outros para a cabeceira e tudo se criou”.

A casa do avô foi [e ainda é] um ninho de amor. Foi naquela casa que se criaram laços de amor que ainda hoje são evidentes. Basta vermos a união entre todos em dia de Páscoa.

O dia começa cedo. E cedo começa também o barulho, os beijinhos, as piadas. Somos todos muito bem dispostos e as gargalhadas são garantidas. Tudo isto com o volume no máximo! [Os vizinhos já se habituaram].

Os ganchinhos [alcunha da minha família] começam a chegar aos pouquinhos,  carregados de iguarias e prontos a montar a mesa de Páscoa.

A tia Laurinda não falha com as moelinhas, a tia Fátima traz as maravilhosas queijadinhas, o Nélson nunca se esquece do bolo e num instante temos a mesa composta! [Isto se o nosso Filipe não comer tudo antes do compasso chegar!)

[Para quem não sabe, o compasso pascal é um conjunto de pessoas que traz o crucifixo de Cristo a casa de quem O quiser receber, a fim de celebrar a sua Ressurreição. ]

Junto ao portão [também ele azul], com as crianças, fazemos o tapete de flores para que o compasso saiba que estamos dispostos a abrir a casa à Cruz de Jesus.

Quando ouvimos as campainhas mais perto é sinal que a Cruz está finalmente a chegar. É tempo de nos reunirmos na sala. Como somos muitos há toda uma estratégia. Os mais altos para trás, os mais baixos para a frente. Mesmo todos encaixadinhos e encostadinhos… há sempre quem fique na rua. Afinal somos sempre para cima de 40.

Em tempos era o avô Eduardo quem pegava na Cruz e nos dava a beijar, agora no alto dos seus [quase] 90 anos já passou a pasta.

Cumprimentamos os senhores do compasso,  conversámos um bocadinho com eles, a Daniela pede-lhes “um santinho” e mal eles viram costas…é hora de atacar!

Mesa para a rua. Panela das moelinhas para cima da mesa et voi la!

Depois da barriga cheia é hora da típica foto de família. Disparo automático e smile! 🙂

Depois disso estamos prontos para cumprir mais uma tradição: caminhar até à capela de Santa Maria Madalena.

A minha Páscoa não é só feita de amêndoas e ovos. A minha Páscoa é feita de amor,  tradições, gargalhadas e de muitos beijinhos.

Uma santa e feliz Páscoa para todos. A minha com certeza que será muito feliz!

 

Esta pessoa nasceu a 27 de março de 1990

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Costumo dizer que tenho 17 anos.

Hoje faço 17 + 11! [Assim não dói tanto].

Nasci às 23:40, de cesariana, no antigo Hospital São João de Deus. Hoje é tudo mais chique e chamam-lhe Centro Hospitalar do Médio Ave. Modernices!

Pesava 3,700 e media 50 centímetros. Era cabeluda e sossegadinha. Ainda hoje sou!

O meu pai, do alto dos seus 27 anos [quase 28], ficou imediatamente babado e apaixonado.

Escreveu-me este poema que ainda hoje sabe de cor.

 

“Nasceste com todo o amor

Que se pode ter na vida

Abençoada sejas por Deus

Cátia, minha querida.

 

És pequenina, tão linda

Cabelos lindos os teus

És como costumo afirmar

Um puro anjo de Deus.

 

Nas horas do meu trabalho

O tempo não quer passar

Estou ansioso à espera

De correr para te abraçar.

 

Na minha vida és o sol

Que eu há muito pedira a Deus

És a brisa da montanha

Uma luzinha dos céus”.

 

Que a saúde e esta boa disposição me acompanhe sempre. O resto a gente conquista. [Só preciso de um bocadinho de sorte!] Parabéns para mim!

 

 

Quem tem uma Mimi tem tudo…

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… tem tudo destruído em casa.

Adotei a Mimi no dia 9 de dezembro de 2016. Tinha umas seis semanas.

A Mimi é filha de uma cadelinha abandonada. Nasceu numa ninhada de sete.

A mãe dela pariu e foi trocando os cãezinhos de sítio para sítio. Valeu-lhes o bom coração do meu primo Serafim, da Sílvia e da Ariana. Acolheram a cadela e os cãezinhos e arranjaram novos donos para eles.

Quando fui a casa do meu primo já só restavam quatro. Peguei em todos. Quando estava quase para trazer um, peguei na Mimi e ela deu-me algumas lambidelas. Contaram-me que ela era a mais “castigada” porque os irmãos mordiam-na e não a deixavam mamar por isso era a mais pequenina. A fragilidade e as lambidelas convenceram-me que era aquela que ia comigo para casa.

Chorou a viagem toda. Teria saudades da Ariana? Afinal ela brincava com ela todos os dias.

Durante a viagem tentamos arranjar-lhe um nome. O Tiago sugeriu Mimi e eu aprovei.

Passado poucos dias foi pela primeira vez ao veterinário. Foi dentro do casaco do Tiago, enrolada numa mantinha. Era muito pequenina e tinha sempre muito frio. Pesava 600 gramas.

Certificámo-nos que estava bem de saúde. Seguimos todo o protocolo. Vacinamos, desparasitamos e uns meses mais tarde esterilizamos a nossa cadelinha.

Hoje, um ano e três meses depois, sabemos que foi uma das melhores decisões que tomamos.

A Mimi dá vida à nossa casa. É meiguinha, gulosa, chatinha [mas nós gostamos], marota, divertida e muito (mas muito) mimada. Tenta sempre ser o centro das atenções! O veterinário diz que a temos que ignorar um bocadinho porque ela está com alguns sintomas de “síndrome de  ansiedade de separação”, que tem que aprender a ser mais independente. Mas quem resiste à forma efusiva com que nos recebe assim que abrimos a porta de entrada?

A Mimi vende energia e rebeldia. A vida dela resume-se a dormir, a brincar, a brincar, a brincar e a comer. Entre estas atividades tira sempre um tempinho para ladrar efusivamente ao carteiro e para se pôr a par das telenovelas.

A minha cama passou a ser dividida com o Tiago e com a Mimi. [ Apesar de lhe termos comprado uma cama “toda pipi” e caríssima, ela continua a preferir a nossa!] A Mimi ocupa uns 60% da nossa cama. Nós temos que nos acomodar os dois nos restantes 40%. A nossa bichinha tem que dormir esticadinha [e de preferência atravessada] para recuperar do seu dia cansativo. Cabe-nos a nós arranjar um cantinho para dormir.

Conversar na cama até tarde está fora de questão. Reclama logo! As lambidelas antes de dormir são garantidas!

Não é adepta de despertadores e antes do meio-dia não dá sinais de vida.

[Sim, nós dormimos com ela. Quando há higiene não tem problema algum).

É louca pelos seus brinquedos. Os seus preferidos são as bolas e as cordas. Quando se cansa deles opta por destruir A CASA! Parte do tapete de entrada já desapareceu, almofadas também já tivemos mais… Tudo o que encontra é de roer: chinelos, rolos de papel higiénico, lenços de papel, etc. Ficamos furiosos mas isso dura poucos minutos.

Desconfio que seja hiperativa. Não imaginam a folia com que vai passear aqui pela aldeia, pelo parque ou pela praia. Na praia farta-se de fazer buracos e de fazer amigos. Fica histérica! E nós adoramos vê-la feliz.

Se recebemos amigos cá em casa ladra como de um cão feroz se tratasse mas é só “fogo de vista” porque na realidade fica cheia de medo deles. [Mas dar a parte fraca é que não!]

A Mimi é aquela tipa que nos acorda às quatro da matina porque tem que ir fazer xixi e que desfaz a cama acabadinha de fazer só porque quer dormir debaixo dos cobertores.

Segue cada passo meu, ouve os meus desabafos e é a melhor companhia que podia ter. Sabe exatamente quando estou triste ou quando estou doente.

A nossa cadela não é só um animal de estimação, é também parte da nossa família!

 

 

 

Eu ganhei uma viagem nas batatas fritas

cabo verde ilha do sal

Estávamos em 2010. Era dia dos namorados e eu e o meu marido comemorávamos quatro anos juntos.

Decidimos dar um passeio. Antes da viagem passamos num hipermercado e compramos algumas coisas para o lanche. No carrinho pusemos um pacote de batatas fritas da Ruffles. A marca tinha lançado um novo sabor e o Tiago estava desejoso de experimentar.

Nesse dia fomos até a Aveiro. Tirámos uma fotografia no Fórum. A mais original ganhava uma viagem a Paris.

Passeamos o dia inteiro e comemos o abençoado pacote de batatas fritas. Dentro trazia um cartãozinho com um código. Guardei no bolso.  No final da tarde fomos para Proença-a-Nova. No dia seguinte era sábado e o Tiago tinha que trabalhar durante a manhã.

Fiquei em casa. Decidi dobrar uma roupa para voltar a colocar na mala e vejo aquele cartãozinho no bolso das minhas calças.

Como estava em casa dele a fazer tempo, peguei naquilo e li. Abri o computador, preenchi um formulário com os meus dados pessoais e coloquei o código. [Não costumo ter muita paciência para estas coisas mas naquele dia preenchi aquilo tudo!].

Mal insiro o código, no ecrã apareceu “Parabéns, ganhou uma viagem! “.

A gente nunca acredita e vai ler todas as letrinhas pequeninas. Li tudo quanto havia. Liguei ao Tiago e disse-lhe o que tinha acontecido. Como estava a trabalhar, a chamada foi curta e ele entendeu que tínhamos ganho a viagem a Paris da tal foto em Aveiro.

Chamei o meu cunhado. Lemos as letrinhas novamente. Lemos o Regulamento e… ficámos com a pulga atrás da orelha. Seria mesmo verdade?

Nesse fim-de-semana não houve outro tema. Na segunda-feira, durante a viagem para Famalicão liga-me a senhora da Ruffles toda entusiasmada:

“- PARABÉÉÉÉÉÉÉNS, ganhou uma viagem! Já sabe o destino que vai escolher? Pode escolher entre Cabo Verde, Palma de Maiorca ou Tenerife. “

Não tive dúvidas! Era para Cabo Verde que eu queria ir.  Era a minha viagem de sonho e aconteceu!

Mesmo assim cá em casa não acreditavam. E eu própria também não. Até que chegou um contrato com tudo direitinho para assinar. Comecei a pensar que podia ser mesmo verdade.

A viagem era em regime de pequeno-almoço. Ligamos para a D-viagem (agência de viagens que tratou de tudo na altura) e tentamos negociar o tudo incluído para irmos mais descansados. A nossa ideia era pagar a diferença por fora e ir em regime de tudo incluído. Espanto o meu quando me ligam da agência e me dizem: “A D-viagem está a lançar-se no mercado e temos todo o prazer de lhe oferecer o tudo incluído!” Cereja no topo do bolo!

Em agosto, embarcamos em Lisboa e fomos até à ilha do Sal. Uma semana! Foi a primeira vez que andamos de avião.

Ficamos num bengalow do hotel Belorizonte e correu tudo bem. Não pagamos nada e desfrutamos de uns belos dias no paraíso.

Praias fenomenais, pessoas muito hospitaleiras e sérias. Enquanto aproveitávamos a água quentinha, na toalha ficavam todos os nossos pertences sem que ninguém mexesse em nada.

Como dizia um colega meu de faculdade: “Oh rapariga, tu lê tudo. Todos os rótulos! Qualquer dia sai-te qualquer coisa numa lata de atum!”

Uma experiência única!

Obrigada Ruffles, obrigada D-Viagem e obrigada ilha do Sal!

Fomos muito felizes!

 

50 factos sobre mim

Circula nas redes sociais um desafio  que se chama “50 factos sobre mim” e eu decidi aceitá-lo. Alguns destes factos não serão novidade para algumas pessoas, no entanto vou tentar revelar algumas coisas que vocês desconheçam sobre mim.

 

1. Faço anos em Março e sou do signo Carneiro.

2. Sou uma rapariga muito bem disposta mas tímida nos primeiros contactos.

3. Não gosto de carne de coelho.

4. Gosto de fotografar.

5. Conheci o meu marido num chat.

6. Nunca tive varicela.

7. Estudei na Universidade da Beira Interior.

7. Sou licenciada em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo.

8. Trabalhei na SIC.

9. Choro com facilidade.

10. Não gosto de café.

 

11. Gosto imenso de gelados.

12. Gosto de viver no campo.

13. Odeio supermercados cheios de gente.

14. Gosto de ouvir hip-hop.

15. Bebo imensa água.

16. Comecei a gostar de chá aos 24 anos.

17. Odeio ter água a correr na cara. [até no banho. Assim que me cai água na cara procuro a toalha para limpar].

18. Não gosto de vinho nem de cerveja.

19. Gosto de dormir a sesta.

20. Admiro pessoas empreendedoras.

 

 

21. Em bebé fiz medicação para a tuberculose. [A minha mãe teve a doença e podia ter-me transmitido pelo leite materno. Foi mais por precaução.]

22. Gosto muito de receber amigos em casa.

23. Adoro cozinhar.

24. Adoro ler e escrever.

25. Tenho uma irmã mais nova nove anos.

26. Adoro sushi.

27. Gosto de comer e de experimentar coisas novas.

28. Em criança tive aulas de órgão.

29. Não suporto mentiras.

30. Tenho medo de agulhas.

 

31. Adoro fruta. A minha fruta preferida é manga.

32. Visto-me de cores escuras a maior parte das vezes.

33. Gosto de roxo.

34. Adoro tecnologias.

35. Gosto do sol de inverno.

36. Sou louca por queijo.

37. Gosto de ver fotografias antigas;

38. Detesto pessoas que se lamentam todos os santos dias.

39. Sou muito friorenta. [o meu melhor amigo é um aquecedor da Rowenta 🙂 ]

40. Adormeço com facilidade.

 

41. Tenho que andar confortável nos pés. Só uso saltos em ocasiões muito especiais.

42. Sou chata quando tenho sede ou fome.

43. Acredito na bondade das pessoas e acabo por me desiludir a maior parte das vezes.

44. Não me sinto confortável em piscinas. Tenho medo.

45.  Adotei uma cadelinha abandonada e adoro-a.

46. Não gosto de ir ao médico nem a hospitais.

47. Namorei 11 anos e 5 meses antes de casar.

48. Já fui a Cabo-Verde e à Tunísia.

49. Ganhei uma viagem nas batatas fritas.

A 50º facto sobre mim ficará a vosso cargo. Deixa a tua proposta nos comentários! Aceitas o desafio?

 

 

A bagagem mais preciosa

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O conflito na Síria está longe de acabar. São sete anos de guerra civil.  Estima-se que já tenham morrido 400 mil pessoas. As fotos que nos chegam através dos meios de comunicação social relatam o cenário de horror e de destruição. Até quando isto vai durar?

Este pai está desesperado e aproveitou a criação de um corredor humanitário para tentar fugir.  Esta poderá ser a única esperança para ele e para milhares de civis que fogem dos perigosos combates no leste de Ghouta, nomeadamente da cidade de Hamouria.

Este homem leva na bagagem o que tem de mais precioso – O FILHO. Aparenta ter menos de sete anos. Provavelmente nunca soube o que é viver em paz.

A pé, cada um carrega o que consegue, numa corrida contra o tempo. A população síria começa a ficar encurralada pelas forças governamentais. As oportunidades de fugir são cada vez menos.

Estima-se que 12 milhões de sírios foram forçados a sair das suas terras. [12 milhões! Mais do que toda a população portuguesa! Dá para imaginar?]

A distância geográfica faz-nos esquecer que estas pessoas são iguais a qualquer um de nós. São de carne e osso, sentem medo e têm um coração igual ao nosso. Que sente e que sofre!

Este homem luta pela sobrevivência dele e do filho e para trás deixa tudo. A sua casa, o seu trabalho, a sua terra, os seus amigos, a sua família. Está desesperado e com medo de morrer. Procura sobreviver e encontrar a paz.

Mas nem toda a gente consegue fugir. Muitos continuam a viver este pesadelo nas zonas afetadas contando os dias para que isto acabe.

Desde o dia 18 de fevereiro, quando começaram os mais recentes ataques das forças sírias e russas contra Ghouta oriental, já morreram 1272 pessoas [entre elas 252 crianças e 171 mulheres]. Estes números são assustadores!

Enquanto isto acontece, o mundo assiste impávido e sereno, a uma das guerras civis mais sangrentas do nosso tempo.

 

 

O meu pai é melhor que o teu!

pai benfiquista

O meu pai é o melhor pai do mundo e por mais que digam que é o vosso… é pura mentira! É porque não conhecem o meu. Ainda por cima é Benfiquista!

O meu pai é extremamente bem humorado. Não foi à toa que pôs no mundo esta rapariga tão bem disposta.

O pai Serafim tem nome “de um anjo” [como ele insiste em lembrar quando lhe dizem que tem um nome feio] e é um anjo na minha vida.

Tenho 27 anos mas ele esquece-se todos os dias que passei dos três.

Até aos meus 7/8 anos fui adormecida por ele todas as noites. O desgraçado tinha que me contar a história do peixinho uma, duas e três vezes. As vezes que me apetecesse. [Difícil era contá-la sempre da mesma forma. Era uma história inventada por ele e a coisa nem sempre saía igual]. Mesmo assim eu adorava-a e pedia-lhe para a contar e recontar. Só mesmo ele para ter paciência.

Nas redondezas sou conhecida por, em criança, andar sempre abraçada ao meu Serafim.  O meu pai não tem carta de condução mas em criança levava-me a pé para todo o lado. Levava-me à escola, à catequese, às aulas de órgão, etc. Quando tínhamos tempo livre apanhávamos o autocarro e íamos ao cinema.

Não sei o que é ter um pai “durão” e “mauzão”. O meu é meiguinho, de beijinhos e de abraços. Quem me punha sempre nos “eixos” era a minha mãe.  [Alguém tinha que pôr ordem!]

Toda a gente diz que sou fotocópia dele e eu fico toda babada, diga-se. Herdei do meu pai o jeito para as letras, a sensibilidade e a alegria. Seria pedir demais herdar também a paciência, a serenidade e o dom da palavra falada? Precisava tanto! Já não vou a tempo, pois não?

O meu pai usou o seu dom da palavra falada na rádio Gondifelos [pirata] entre os anos 1986 a 1989. Ainda hoje muita gente se lembra e me fala disso. Era ele quem fazia o programa “Discos pedidos” e que derretia o coração das meninas cá da aldeia (que o ouviam todos os dias religiosamente). [A minha mãe não achava grande piada a esta parte. Embora ficasse “toda inchada” quando sabiam que ela namorava para o tipo romântico da rádio].

Apesar de todas estas qualidades ele continua a achar que eu sou a melhor em tudo.  Baba-se todo quando fala das filhas. É apaixonado por mim e pela minha irmã.. e nós por ele.

Feliz dia do pai, papá! És o meu herói!

 

O “interior” da solidão

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O meu marido é do Interior. Nasceu em Proença-a-Nova em plena Beira Baixa.

Os pais dele nasceram na aldeia da Cerejeira que pertence à freguesia de Alvito da Beira, concelho de Proença-a-Nova.

No primeiro ano de mestrado em Jornalismo [em 2014]  decidi explorar este cantinho de Portugal e escrevi esta reportagem. Espero que gostem.

 “Nas ruas não se vê ninguém. O silêncio é ensurdecedor. As casas estão fechadas, muitas delas só abrem no Verão. Outras estão abandonadas e começam a cair. Rede no telemóvel não há. Sinal da TDT só quando calha. As ruas são apertadas e sombrias. Pessoas há poucas, quase todas com idade acima dos 70. Longe vão os tempos que os bailes alegravam a aldeia. Nesses dias “era velhos e novos, tudo a dançar” recorda Piedade Afonso que já soprou 81 velas em Abril. O “Tomé da Foz”, como era conhecido, era quem costumava tocar concertina. Morava numa freguesia vizinha mas já morreu.

Pelo São João fazia-se uma grande festa à volta de uma fogueira no largo do “Cuco”. “Tudo trazia um braçado de coroas-de-rei” e ali se cantava umas cantigas noite dentro.

Piedade sempre viveu na Cerejeira. O marido nasceu numa freguesia perto mas cedo se mudou para a aldeia. A mãe morreu-lhe tinha ele 7 semanas. Foi criado por uma avó e por uma tia.

José Caetano e a sua esposa Piedade cedo foram ensinados a trabalhar no campo. José acabou por conseguir um emprego na Câmara Municipal, como pedreiro, e trabalhou lá até ir para a reforma. Casaram e tiveram quatro filhos. Estão todos na Suíça.

Antes de namorar com Piedade ia com os amigos “ver das cachopas para cascos de rolha.” Conta que uma vez foi, juntamente com cinco amigos, para um baile na freguesia vizinha. Como não havia ponte, tinha que se atravessar a ribeira do Alvito a pé. Para lá conseguiram passar mas para cá a água já tinha subido. Caminharam até a um sítio onde fosse possível fazer a travessia mas deram “uma volta enorme”. “Chegamos aqui já havia sol”, conta divertido.

Chegou a emigrar numa tentativa de ter uma vida melhor. Foi de carro até à fronteira com Espanha. Passou a fronteira a cavalo. Depois meteram-no, a ele e a mais umas duzentas pessoas, num camião e levaram-no até França. Chegou num dia à noite, no outro dia foi logo trabalhar cedo.

Piedade recorda os tempos em que os filhos ainda eram pequenos. Como não havia escola na Cerejeira, eles tinham que ir a pé para Sobrainho dos Gaios. Demoravam uma hora a lá chegar. Levavam “uma merendinha” e lá iam todas as manhãs, muitas vezes com tudo “coberto de geada”. Piedade ainda estudou numa escola que existiu na Cerejeira mas acabou por fechar. Hoje está em ruínas.

As professoras dos filhos eram primas e chegaram a querer ir embora porque havia ratos na escola. Piedade albergou-as na sua casa para não terem medo.

Antigamente “a vida era muito dura”. Os caminhos eram de terra batida. Quando chovia muito era tanta lama que tinham que andar de botas e mesmo assim enterravam-se. O vestuário comprava-se e passava dos mais velhos para os mais novos, tal como o calçado. A luz só chegou à aldeia em 1983, antes disso iluminavam-se com candeias a azeite e a cadeeiros a petróleo. Os cadeeiros não se acendiam muito tempo pois o petróleo era caro. Ninguém tinha casa de banho. As necessidades faziam-se na rua. Não havia água canalizada, tinha que se ir buscar a uma fonte.

José Caetano confessa que “as mulherzinhas nesse tempo passavam muito sacrifício para ir buscar lá a água” porque ainda era longe. Mas diz em tom de brincadeira: “ agora têm água em casa e ainda ralham que a gente não as ajuda.”

Quando era novo ia, muitas vezes, pastar os bois para uma povoação vizinha, tal como muitos rapazes da sua idade. Muitas vezes ficavam lá uma semana. Bebiam água da ribeira e “nunca ninguém morreu”. Agora “uma pessoa tem tudo e ainda é mal-agradecida”. José pergunta com uma certa emoção. “Quem é que não tem saudades do tempo antigo? Há alguém que não tenha saudades?”

Em tempos foi caçador. No Verão de 2004 passou lá o fogo e destruiu tudo. Deixou de haver caça. Mas ainda hoje guarda a arma com que caçava. Tem medo dos ladrões e esta é a forma que arranjou para se proteger. Há pouco tempo assaltaram adegas, roubaram os motores de rega e os alambiques. O maior medo e que lhes façam mal.

Há muito tempo que não há comércio na Cerejeira. O padeiro distribui pão às segundas, terças e sextas; a mercearia e as frutas chegam todas as quartas, numa carrinha. O peixeiro vende à quinta e à sexta-feira. “Não há variedade” reclama Alberto Afonso de 62 anos. O comercial viu-se obrigado a ir para Lisboa porque não tinha oportunidades de emprego. “As pessoas aqui trabalham para comer”, relata. Hoje já só tem uns primos afastados a viver na aldeia, mas faz questão de vir visitar a terra, três ou quatro vezes por ano.

Alberto recorda que antigamente o pão era feito no forno comunitário. Muitas vezes comia-se duro e “já com um bocadinho de bolor a aparecer.” Os casamentos eram feitos em frente ao forno da povoação. Era ali que se cozinhava para os convidados e se fazia a festa.

Antes juntavam-se na casa mortuária e rezavam o terço no mês de Maio e de Outubro. Agora têm uma capela construída por um empresário lá da zona. O terreno foi cedido por uma família da aldeia.

Piedade é muito religiosa e apesar de ir à missa de sábado ao Sobrainho dos Gaios, aproveita para, ao Domingo, ouvir a missa na rádio, enquanto prepara o almoço.

Maria da Conceição Martins tem 73 anos e sempre viveu do campo. Tem as costas curvas de andar vergada a trabalhar na terra. Sempre se deu bem com os vizinhos e tem pena que a “mocidade” tenha sido obrigada a procurar trabalho noutro lado.

No seu entender, a gente da Cerejeira “não merece muita coisa” porque está no interior e já é velha. Está satisfeita com o que há na Cerejeira e diz que não precisa de mais nada. Agora “tem estradas boas, tem luz, tem água… o que é que a gente precisa mais?”, pergunta.

Tem máquina de lavar roupa mas gosta muito de lavar à mão. Traz consigo um carrinho de mão enferrujado e muito ruidoso. Dentro tem um balde cheio de roupa e uma barra de sabão rosa. Lava na ribeira quase todos os dias. O seu marido suja muita roupa.

A água corre limpinha. É fresca. Pura. Consegue ver-se as pedras no fundo. Leva muita água. Alguma dela é usada para regar os plantios, muitas vezes atacados pelos javalis.

Maria da Conceição debruça-se sobre o esfregador e começa a lavar as primeiras camisolas. A energia com que lava é incrível para uma pessoa desta idade. Põe as mãos na água fria como se de água morna se tratasse. Passa a roupa por água, passa o sabão e esfrega, esfrega. Põe a roupa a corar ao sol, passa-a novamente por água e já está. Pronta a estender. Apesar viver com poucos mimos, não se queixa da vida que leva. Vê-se escancarado no rosto que é feliz aqui.

O posto médico a que ia regularmente fechou há dois anos. Costumava ir às consultas de trator com o seu marido, já que não tinha outro meio de transporte. Agora tem que apanhar um dos poucos autocarros que há para a vila mais próxima, Proença-a-Nova. Antigamente nem acesso ao médico tinham. Quando tinham constipações, dor de dentes ou febres, os medicamentos eram receitas caseiras feitas à base de ervas.

Conceição Ribeiro há sete anos que passou os 70. Os pais dela eram da Cerejeira. Teve 4 irmãos. Sempre teve muitos animais. Hoje, devido à idade, só tem cabritas, galinhas e até há bem pouco tempo tinha um porco. Conseguiu pôr os filhos a estudar. Um é médico, o outro professor.

Ainda se lembra do tempo em que era criança. Divertia-se a correr pelas ruas de terra batida e a jogar “às arestas e ao trupe” com os meninos da sua idade.

Costuma ver televisão para saber as notícias do país, apesar de serem “todas pouco boas”. E reclama: “eles dizem palavras que a gente não sabe o que quer dizer”. Para perceber o que está a ser dito pergunta ao filho Paulo, que é professor.

Apesar do filho Paulo lhe ralhar para não cozer pão porque dá muito trabalho e a idade já é muita, Conceição ainda coze, por vezes, no forno da aldeia. O pão é feito com a farinha de milho que mói no moinho movido a água. Um moinho velho mas recuperado que ainda serve a povoação.

José Caetano diz que aqui ainda não se sente a crise. “Tudo vai semeando, tudo vai plantando e tudo vai arranjando para comer.”

Em tempos tudo aquilo que se produzia era vendido. “Antes vendia-se azeite, vendia-se vinho, vendia-se água-ardente. Agora não se vende nada”. Como não se vende o vinho “tem que se acabar” com ele. “Eu já bebi bem a minha parte” mas ele “não se pode estragar”. Mostra o sorriso já com poucos dentes.

Antigamente as pessoas viviam da apanha da azeitona, da colheita de resina, dos animais que iam criando e do que produziam na horta. O azeite era feito num lagar movido a água.

No Verão a Cerejeira ganha outra vida. Os filhos emigrados chegam para visitar os pais. Chegam pessoas de todo o lado. De toalha debaixo do braço, calções e chinelos de dedo, vêm prontos para dar um mergulho na praia fluvial da “Couca”. Há mais movimento. Piedade Afonso vai para lá todos os Domingos. “Pela hora do calor, a malta vai toda para a praia”.

O resto do ano vivem em contagem decrescente para que chegue novamente a época do calor. Desejosos de ver crianças a dar cor às ruas e a correr. Caminho acima, caminho abaixo. Vivem a contar os dias para abraçar os filhos e ver como cresceram os netos. Foi aqui que nasceram e muito possivelmente é aqui que vão morrer. Longe dos filhos, longe de tudo.”

 

Continuo a ir à Cerejeira com alguma regularidade. O meu marido ainda tem dois tios que vivem lá.

As pessoas são cada vez menos. Não há oportunidades e os novos são obrigados a “fugir”.

Mesmo assim, o Governo continua a esquecer o Interior e isso irrita-me!

 

 

Na minha rua há mais Marias do que na tua

Maria, uma.

Maria de Fátima, duas.

Diana Maria, três.

Maria Luísa, quatro.

Maria da Conceição, cinco.

Maria Alice, seis.

E mais umas quantas que já nos fugiram! Como a Susana Maria, a Maria do Céu e mais uma Maria de Fátima. SÓ NA MINHA RUA!

Vem a peixeira ou o padeiro e num instante se juntam umas três ou quatro Marias em pouco mais de um metro quadrado. Não é um bocadinho demais?

Eu safei-me… mas foi por pouco! Valeu-me um “n” lá no meio. MariNa! Ufa! Foi por um triz.

O mesmo não pode dizer a minha irmã, que apesar de ser de uma geração mais recente lá levou o carimbo de Maria! E quem lho pôs foi uma tal de MARIA LUÍSA. Isto é todo um passar de legado.

Nem as pobrezinhas das bolachas se safaram. Estão em todos os armários desta rua, aposto! [Essas são difíceis de contabilizar].

Mas a “tendência” da minha rua espalha-se por aí. Nas redondezas a coisa não me parece tão grave mas pouco muda…

Ora bem, pensando assim rapidamente, temos mais uma Maria Emília, uma Liliana Maria, mais duas Marias de Fátima, uma Maria Lucinda e sei lá eu mais quantas.

A minha família paterna também foi na onda. Ora vejamos: temos duas Marias da Conceição, uma Margarida Maria, uma Maria de Fátima, uma Maria Alexandrina, duas Laurindas Maria, uma Rosária Maria e de certeza que me escapou alguma.

Estamos perante uma epidemia? Certamente! Oxalá isto não se pegue.

E quem terá dado o mesmo nome a tanta gente?

De certeza que foi uma “Maria vai com as outras”! *

*Expressão popular bastante usada no norte usada para nos referirmos a uma pessoa que demonstra não ter opinião ou vontade própria.

“Nada é impossível para quem acredita na força do amor”

love

 

Tinha 15 anos, a caminho de 16. Ele tinha 21 acabados de fazer. Estávamos em 2006.

Assustador não? Começando pela idade.

Era dia dos namorados e eu estava na escola. Lembro-me de estar envolvida em algumas atividades alusivas ao dia até que chegou o “SMS” que iria mudar a minha vida. As nossas vidas.

Entrei na biblioteca, olhei para o telemóvel e li mais uma mensagem do Tiago: “Queres ser a minha princesa?” O meu olho brilhou. Até que enfim ele tinha tomado a iniciativa! Mas… era uma loucura! Duzentos e cinquenta quilómetros separavam-nos. Ele vivia em Proença-a-Nova, eu em Famalicão.

Não sei precisar há quanto tempo falávamos na internet mas creio que há um bom par de meses. Cruzámo-nos num chat. Não sei como. Não costumava frequentar esse tipo de sítios a não ser por brincadeira com as minhas amigas nos computadores da escola básica. Um dia decidi entrar sozinha e trocámos e-mails.

A partir desse dia falávamos todos os dias, exceto ao fim de semana. Ele enfiava-se nos bombeiros e eu não tinha internet em casa. [Isto no tempo em que pouca gente tinha internet em casa e que ainda não havia mensagens nem chamadas grátis!] Sou mesmo antiga!

Com o passar do tempo, os fins de semana começaram a ser dolorosos. Durante a semana falava com o Tiago nos computadores da escola e no final das aulas corria para o espaço internet para falar um bocadinho mais antes de apanhar o último autocarro para casa. Com o tempo deixamos de aguentar estar tanto tempo sem falar e lá gastávamos uma fortuna em chamadas/mensagens. Para piorar a situação éramos de operadoras diferentes. [Começavam as dificuldades].

Num desses fins de semana em que passamos a falar, percebi que o sentimento era recíproco. Senti ciúmes e ele para me “acalmar” dedicou-me uma música.

Mas por que motivo iria sentir ciúmes de um miúdo que nem conhecia e que ainda por cima era muito mais velho que eu? Estava louca. Era o que pensava.

Mas… ao abrir aquela mensagem deixei de conseguir negar o que o meu coração sentia e aceitei “ser a princesa” dele.

Como é que se conta aos amigos que estamos apaixonados por uma pessoa que conhecemos na internet e que nunca vimos?

Inicialmente não contamos. Simples. Mas há um dia que não conseguimos mais disfarçar.

A Susana, a minha grande amiga do secundário, via que o meu comportamento estava mudado. A cabeça andava na lua e assim que acabavam as aulas eu simplesmente desaparecia.

Um dia contei-lhe. A reação não foi boa e nem poderia ser sendo ela uma amiga daquelas. Ficou preocupada comigo e chamou-me à razão. Foi muito mais consciente e racional do que eu. Muito mais. Mas eu estava apaixonada. Estava capaz de avançar sem medir os perigos. Acho que a Susana só sossegou quando os meus pais souberam.

Andei largos dias a ganhar coragem para contar aos meus pais. A coragem não aparecia. Apareceu no momento errado.

Estava em casa de uns amigos dos meus pais.  O “Zé” estava a ler o jornal e comentou com os meus pais que estava desaparecida uma rapariga (para os lados de Braga, julgo eu) e que havia suspeitas que estivesse com um rapaz mais velho que tinha conhecido na internet.

Não sei o que me passou pela cabeça mas lancei um “eu também namoro com um rapaz da internet”. Os meus pais e os amigos deles ficaram em choque.

Depois disso, há memórias que já me falham. Lembro-me da má reação da minha mãe, do “sermão e missa cantada”, de chorar e de ver a minha mãe chorar.

Poucos dias depois, tinha falado com a minha mãe e discutido com ela uma vez mais por causa do meu relacionamento com o Tiago. Nesse dia o meu pai bate-me à porta do quarto e pede para falarmos.

O meu pai, piroso de tão romântico, olha-me nos olhos e pergunta-me: “ – Tu gostas mesmo dele?”. Disse que sim, nervosa. “ – Então tens que o ir conhecer. Mas sabes que nem tudo pode ser o que imaginas”.

Às escondidas, com a ajuda do meu pai, lá fui eu encontrar-me com o Tiago a meio do caminho. Durante a viagem perdi a conta às chamadas que recebi do meu pai. Preocupado, com voz trémula. Falou com o Tiago ao telefone mais que uma vez. Era arriscado.

Era a primeira vez que fazia uma viagem tão longa sozinha.  Vi a placa “Coimbra B”, nervosa peguei nas minhas coisas e saí ainda meia desorientada. À minha espera estava o Tiago. Tinha 21 anos mas parecia ter 15! Magrinho, frágil e muito dócil. Assim que me viu correu, abraçou-me e beijou-me com uma intensidade indescritível.

Poder tocar-lhe era arrepiante.

As idas a Coimbra começaram a ser obrigatórias pelo menos uma vez por mês. A minha mãe continuava sem saber. Os pais dele também.

Quando os pais dele descobriram foi outro choque. O pai, ex-militar de uma força de segurança, pôs logo “pés ao caminho”. Uns dias depois tinha uma força policial à porta para saber quem eu era. Digno de filme.

Nesse dia fui abordada por um agente que me perguntou se eu era “a fulana de tal”. Com direito a nome completo e tudo! Disse que sim. Disseram que não era nada e seguiram caminho. Mas como é que sabiam o meu nome?

Ao jantar decidi comentar com os meus pais aquele momento caricato. Os meus pais ficaram em pânico, afinal de contas podia ter estado “no sítio errado, à hora errada”.

Na manhã seguinte fomos ao posto. Não havia nenhuma queixa no meu nome. Respirei de alívio. Não fosse estar mesmo no “sítio errado, à hora errada”.

Os meus pais insistiram numa explicação. Eu era menor e era estranho ter sido abordada assim na rua.

Chega um agente de meia idade e pede-nos para o acompanhar. Seguimos atrás dele para uma sala escura. Encostou-se a uma mesa e contou que o pai do Tiago tinha pedido para eles tentarem saber quem eu era e se era “de confiança”. O meu coração descansou, o da minha mãe disparou. Ele não podia ter feito aquilo. Ele pediu perdão pela atitude, as desculpas foram aceites e viemos embora.

A minha mãe continuava em negação, os pais dele também.

Um casal amigo dos meus pais casou e fomos convidados para o casamento. O Tiago veio a Famalicão pela primeira vez e foi amor “à primeira vista” entre ele e a minha família.

A partir daí as visitas passaram a ser cada vez mais frequentes. Depois, ingressei na faculdade e aí já estava mais perto dele. Estávamos juntos todos os fins de semana e ele era um grande apoio para mim.

Em 2015 veio viver de vez para Famalicão. O ano passado casamos.

Os perigos da internet são reais. Assustadores! Todos os dias vemos notícias de casos que correm mal. Não tivemos consciência do perigo [Eu pelo menos não tive]. Mas nós somos a prova que a internet também pode trazer finais felizes.

 

“Nada é impossível para quem acredita na força do amor”. Nós acreditamos! Contra tudo e contra todos.