Valerá a pena estudar? Continuo a achar que sim. Memórias.

Toca o despertador. Abro um olho. Vejo as horas e… já são 8 da manhã! Parece que só tive tempo de fechar e abrir os olhos! Incrível! A vontade de me levantar é nula. No meu cérebro ecoa a voz da minha mãe “Vá filha, tem que ser. É só mais uns dias e depois já descansas. Não te esqueças do esforço que a mãe faz para te ter na universidade”.

Ganho coragem e lá me sento na cama. Meto-me debaixo do chuveiro e deixo a água cair na cara numa tentativa de acordar um pouquinho mais. O cansaço é tanto que já pouco resulta. Mas vá, só falta uma semana!

Mal tenho tempo de olhar para o espelho. É da maneira que não vejo as olheiras! Maquilhagem? Creme? A minha cara já não “vê disso” há uns dias.

Tomo café a correr, meto a mochila às costas e lá vou eu a caminho de mais um dia de aulas. Mal dou conta das horas passarem. Apresenta-se, entrega-se, faz-se tudo o que há para fazer e já são 17 horas. Volta-se a casa para mais uma maratona de estudo e de trabalhos.

A última semana deixa qualquer um à beira de um “colapso cardíaco”, mas calma Cátia Marina, pensa no que a tua mãe te disse! Estás a ter uma oportunidade que muitos nunca tiveram.

Sento-me à secretária. Está coberta de papéis, “papelinhos” e “papelões”. Como é que é possível acumular tanta coisa num tampo de madeira tão pequeno? Digo para mim própria, “amanhã juro que arquivo tudo”… se tiver tempo! Arranjo um “cantinho” e lá meto o computador. Começo a escrever. Perco as horas. Olho para o relógio de pulso e … e marca 23 horas. Como é possível? E o jantar? Pronto, mete-se numa pizza no micro-ondas e está feito!

Enquanto janto, liga-me o meu pai. Queixo-me do trabalho e do pouco tempo que tenho para fazer tudo. Digo-lhe que hoje não vou fazer mais nada porque estou muito cansada. Ele lá me diz “querida, não deixes para amanhã, o que podes fazer hoje”. Passa o telefone à minha avó que me diz “ o que não se faz no dia de Santa Luzia, faz-se no outro dia” vai mas é dormir! Boa, em que é que ficamos? Grande ajuda! Decido continuar. De “palitos” nos olhos e de pestanas queimadas, mas não desisto!

Volto ao trabalho e quando reparo… são duas da madrugada. Penso: “tens que te deitar Marina, amanhã tens frequência cedo”. Visto o pijama e deito-me. Mesmo assim o cérebro não pára. Viro-me uma e outra vez. Acabo por adormecer. Sonho com a minha vizinha a dizer-me: “oh rapariga, tu não andes a ‘matar’ a cabeça com a universidade, que depois não tens emprego. Só estás a dar despesas aos teus pais. Um curso superior hoje em dia não serve para nada”. É apenas um sonho, mas podia perfeitamente ser real. Oiço isto sempre que vou “à terrinha”.

Começo a pensar se vale a pena tanto esforço e tanto trabalho. Entro num momento de reflexão: um curso superior não serve para nada? Mas e a realização pessoal e o cultivo da mente não contam? Pobre Portugal dos pequeninos.

Escrito a 4 de Junho de 2014

Marina Azevedo

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Saudade!

Hoje acordei com saudades tuas!

Do teu sorriso rasgado mas quase sem dentes. Das tuas bochechinhas rosadas, do teu olhar meigo, do teu narizinho achatado. Ai como eu tenho saudades de sentir as tuas mãos e de te ouvir ralhar com a tia Paula (que teimava em ver sempre o lado negro das coisas).

Lembro-me tão bem das histórias que contavas ao domingo à tarde e daquele bolso do avental que guardava sempre uma moeda para dar aos bisnetos. Eras sempre tão generosa!

Nunca mais vou conseguir comer uma bolacha “Maria Dourada” sem que me lembre de ti. Quantos pacotes me deste? Serão sempre as bolachas da “avózinha de Negreiros”.

Recordo-te e tenho-te como um exemplo. Foste tudo aquilo que eu quero ser um dia: uma mulher guerreira, uma mãe exemplar.

Apesar do bisavô ter morrido em Angola e teres ficado sozinha tão cedo, conseguiste criar quatro filhas! Uma delas morreu, eu sei. Eu sei que queres que ela não seja esquecida. Eu também sei que nunca desististe dela. A cabrita que compraste para que a pudesses alimentar fez com que eu, na minha vida, relativizasse muitos dos meus problemas.

O meu amor por ti não acabou naquele dia em que a minha mãe chegou a casa, lavada em lágrimas, e nos deu a notícia. Confesso que o meu coração ficou aliviado pois não conseguia ver-te naquele estado. Tu já não eras mais a “Maria do Mateus” que eu conheci: autónoma, de lenço preto na cabeça e sempre positiva. Já nem conseguias ralhar com a tia Paula! Não eras tu que estavas ali deitada naquela cama.

Não tive oportunidade de me despedir de ti e de te dizer olhos nos olhos o quanto te amei, mas tu sabes que és um exemplo de vida para mim. És e serás sempre a minha “vózinha” e passem os anos que passarem nunca me vou esquecer de ti e dos conselhos que nos davas.

Eu sei que partiste velhinha e a tua missão na terra já foi mais que cumprida, mas gostava que voltasses e ficasses comigo só mais um segundo.